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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fernando Pessoa 80 anos depois

Fernando Pessoa 80 anos depois


Celebrado em nossa atualidade como um dos grandes poetas do século XX. Vale, por isto, sempre recuperá-lo e convidar à sua leitura


por Juarez Donizete Ambires*


O poeta das sensações É ainda o poeta das sensações, e o mundo pelas sensações pode ser visto como prova do seu apego à infância e ainda à natureza. Caeiro sempre aconselha, por isto, a que sintamos (verbo intransitivo) e, na extensão, nos livremos do pensamento4. Lembremo-nos de que, para ele, pensar é estar doente dos olhos. E por ser o poeta dos sentidos, Pessoa o filia em sua gênese a Cesário Verde. Em verdade, associa-o ao estimulo sensitivo que encontrou em alguns poemas de Cesário5. Na extensão dos fatos, chama a atenção do leitor para os quarenta poemas realistas que o poeta nos legou. Neste conjunto, encontra-se, para exemplo, "Num bairro moderno", poema que é ode camuflada às sensações e a um mundo visto e captado por elas6.
Reis é o médico e o poeta que amam a cultura clássica. Os valores do universo greco-romano estruturam-lhe a vida e a captação das coisas. Devido ao fato, há em sua poesia certo tom melancólico. Sua escrita dialoga com o mitológico e convive com Virgílio, Horácio, Lucrécio. A busca do equilíbrio entre os sentidos e a razão preocupa-o, e ele expressa o fato. A filosofia estoica é também sua conhecida. Consigo e em sua poesia, o poeta guarda as lições de Sêneca, interage com o seu conteúdo. Enxergando o mundo como homem da cultura clássica, dirige-se aos deuses no panteão. Encaminha Cristo para este espaço e o vê como mais uma de suas divindades. Nas falas de Pessoa acerca deste heterônimo, é de todos o que possui o melhor português.

CITAÇÃO
LIVRO DO DESASSOSSEGO

É uma das grandes obras do escritor português Fernando Pessoa. Embora seja da autoria de Pessoa, vem assinado por um de seus heterônimos, Bernardo Soares. "É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?" (trecho de Livro do Desassossego)

CURIOSIDADE
LIVRO DO DESASSOSSEGO

É uma das grandes obras do escritor português Fernando Pessoa. Embora seja da autoria de Pessoa, vem assinado por um de seus heterônimos, Bernardo Soares. "É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?" (trecho de Livro do Desassossego)

Álvaro de Campos, na vez dele, representa a modernidade. É o engenheiro de profissão, como também o heterônimo das viagens. Almada Negreiros7 o retratou de monóculo e maleta na mão. Porta maior elegância que a de Caeiro e a de Reis. Sua geografia é a urbana, a das grandes cidades. Dialoga com a solidão destes espaços e deambula. Sua segunda língua é o inglês. Dos três poetas é o de comportamento mais irascível. Não suporta se sentir conduzido. Fala da nulidade do ser, mas, à parte isto, traz em si todos os sonhos do mundo. Se uníssemos as três personas principais para a composição de um único homem, Álvaro certamente seria a adolescência e a instabilidade. Em sua forma de ser, expressa ainda o amor heterodoxo.
O ortônimo8 (mais um heterônimo, em nossa opinião) é a persona de o Cancioneiro e Mensagem. Em seu fazer poético, ele efetua a recolha das quadras populares para o primeiro livro. Depois, dialoga com Camões9, construindo um poema épico às avessas. Mensagem, em sua gênese, assume esta representação. Liga-se ainda ao diálogo que Pessoa trava com a história de Portugal. Em sua cultura, ele sabe que grita o anseio de se encontrar outro Luís Vaz10. Os conteúdos do presente negam as glórias do passado e O Ultimato inglês, de 1890, proíbe na África a afirmação do terceiro império. A alternativa ao impasse se faz, na perspectiva de Pessoa, pela literatura. Mensagem, anos depois, é sua resposta. Nos seus poemas, porém, há espectros.
Por isto, em todo o livro, o passado vem à tona e, nele, um poema épico invertido se processa. Nomes são evocados. O procedimento fora usado antes por Guerra Junqueiro11. Pátria12 - peça para teatro - constrói-se com este intuito. Unindose a Os Lusíadas13, torna-se o alicerce de Mensagem14, em cujas páginas muitos desfilam, mas presos às suas sinas. Isto ocorre com o Infante15, com Diogo Cão16. Também com Filipa de Lencastre17, aquela que só gênios concebia, mas trazendo em si um enigma. Ocorre ainda com D. Sebastião18, personagem que é o desejado, mas sempre engolido pela névoa. Em sua essência, o rei é de todos o mais malsinado. De algum modo, ele é Portugal também se fazendo em símbolos de tragédia e desesperança.

AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
(Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro')

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