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segunda-feira, 2 de maio de 2016

O amor filosófico e o puro prazer




O amor filosófico e o puro prazer


Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

por Marcio Salgado*

A razão socrática, contudo, é acusada de servir à repressão dos instintos. Nietzsche postulou a questão de uma racionalidade repressiva ao observar que esta está a serviço da ordem e da moral, que representa uma coerção ao indivíduo autônomo. A moral, de acordo com as suas palavras, transformase em "instrumento do instinto de rebanho." Como se pode ver, a razão tor nouse má conselheira, e um veículo da repressão aos instintos mais verdadeiros.
De outra forma, Freud concluiu que o embate do indivíduo com a sociedade é irreconciliável. A isso ele chamou de "malestar da civilização." A razão que foi construída a partir dos gregos quer guiar o mundo conflagrado onde habitamos. Este mundo não tem governo. Mas não existe outro onde possamos viver, a não ser o mundo da desrazão. Podese argumentar que a razão, seja ela grega ou moderna, é sempre repressora: é da sua natureza, se assim se pode dizer.
O AMOR E O PRAZER EM NOSSO TEMPO
O amor da nossa época pretende ser puro prazer; deve encerrarse aí onde teve início, no próprio corpo. Ele tornase dejeto logo após o gozo. Mas, de toda forma, isso não deve ser considerado apenas negativamente, levandose em conta que se trata de um tempo em que o amor às pessoas foi substituído pelo amor às coisas.
 Modernidade
O sociólogo britânico Anthony Giddens escreveu uma obra interessante para se pensar o amor, a sexualidade e a intimidade no mundo moderno:A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (Unesp, 2000)
Seria uma tarefa inglória comparar a antiguidade clássica com a modernidade. A própria modernidade já se diferencia de si mesma em diversos aspectos. Apesar disso, a filosofia e o amor platônicos transcendem as barreiras do tempo. Não faltam contestadores da sua filosofia, contudo, todos estão de acordo com uma verdade inequívoca: Platão foi um pensador de gênio.
No Fedro ele mostra que o exagerado apetite dos prazeres corporais e das coisas materiais não levam a bom termo. E, como acontece em outras ocasiões, ele cria ou serve-se da narrativa de um mito para ilustrar o seu pensamento.
No mito da "parelha alada", o cavalo de mau gênio representa a concupiscência - o vício, a cobiça e as práticas sexuais exacerbadas. Na sua corrida indômita, ele desvia-se do caminho reto, levando junto o cocheiro e o outro cavalo. Nessa alegoria, o cocheiro representa o intelecto, que oscila entre os impulsos antagônicos dos dois cavalos: um obediente, que simboliza a coragem; o outro, rebelde, que guia-se pela extravagância dos sentidos.
Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde havia as essências absolutas: a verdade, o belo, o bem.
Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias.
O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos

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