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segunda-feira, 2 de maio de 2016

O amor filosófico e o puro prazer

O amor filosófico e o puro prazer

Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

por Marcio Salgado*

Tudo o que a nossa época deseja é poder celebrar as conquistas pontificadas pela ciência, pelas tecnologias, pelo conhecimento emancipador da modernidade. Evidentemente, as ditas conquistas se fazem acompanhar de uma libertação espiritual e moral sem precedentes. O indivíduo contemporâneo não quer saber de enigmas, ele aspira a uma vida material que preencha todos os mistérios, todas as faltas. E a libertação moral a que chegou serve bem ao seu plano de realização dos desejos, tomando como centro de tudo o próprio corpo. É aí que se dá a encenação do seu teatro.
Até já se imaginou que as coisas se resolvessem em um cenário político, mas as utopias se dissiparam. A política teve a sua fase erótica, motivadora dos desejos revolucionários. A sedução política do corpo deu lugar a uma celebração do puro prazer sem reivindicações. Tudo já se encontra aí, em abundância. Contudo, é o corpo que dita as regras do jogo. Ele diz se está ou não satisfeito. E a presunção de que seria massacrado pela exploração capitalista, felizmente, não chegou a termo, pois, como o próprio capitalismo, ele também sofreu as suas metamorfoses.
O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos. Não se pode negar a sedução do vestir, mas ele quer desnudar-se.
E tudo então retorna ao templo sagrado do corpo que ama, antes de mais nada, a si mesmo. Venceu o cavalo de mau gênio. É ele que dirige a parelha alada, obcecado pelo prazer, o sexo, o consumo e a matéria.
Na alegoria platônica que ilustra os dias atuais, o cocheiro (intelecto) perdeu o controle do seu carro. O corpo flana em uma fauna de prazeres, enquanto a razão desce as escarpas.
REFERÊNCIAS
Platão. O Banquete. In: Platão/Diálogos. Tradução e notas: José Cavalcante de Souza. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 32-101 (Os pensadores).
_______. Fedro. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.
*Marcio Salgado é escritor, pesquisador, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

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